Quais são os assuntos discutidos no seu solo?
Igor – O que seria comida de verdade? Comida não é somente uma questão de nutrição. Temos uma herança alimentar que muitas vezes desprezamos e não refletimos sobre nossas escolhas. Comer talvez seja a maior ligação que temos com a natureza; somos dependentes e agraciados com essa necessidade. Mas estamos cada dia mais isolados, comendo sozinhos, pensando somente nas calorias e nutrientes de cada alimento, perdendo a melhor possibilidade do ritual e encontro desse momento. O prazer da alimentação deve ser desprezado? Todos esses temas estarão conectados na cena daquele homem dentro da sua cozinha com sua galinha, discutindo sobre a necessidade daquele curso e sua importância, enquanto cozinha, bebe e come.
Sua personagem tem uma livre inspiração no protagonista do livro O Idiota, de Dostoievski. Qual a relação de O Idiota com a construção dramatúrgica do texto?
Igor – Eu chamei dois amigos dramaturgos pra me ajudarem a escrever um texto, ou textos, que se conectem pela ideia central do trabalho. Um deles deu mais foco a essa primeira ideia de O Idiota. Na verdade, não temos nada além da inspiração da personagem central de Dostoievski. Esse cara livre aparentemente tranquilo com suas ideias. O livro trata de uma forma geral da superação do egoísmo burguês. Eu, na construção da dramaturgia, não faço referência necessariamente à obra de Dostoievski, que, por sinal, é maravilhosa e bem extensa, com muitas personagens e histórias. Eu somente parti dessa inspiração de personagem e construí junto com os outros autores, Aldo Marcozzi e Daniel Dourado, a partir de noções e reflexões sobre a consciência do alimento, um pensamento sobre o que seria comida de verdade. Estudamos outros autores também, como por exemplo Michael Pollan, que já tem passagens pela história da gastronomia.
O público vai realmente ver uma galinha sendo morta todas as noites?
Igor – O publico vai ver a galinha viva, na eminência de ser morta, mas não matarei a galinha. Na canja eles comerão uma galinha que talvez já tenha nascido morta em seu abatedouro. Eu adoro a possibilidade dela ser de fato morta todos os dias, mas foram muitas discussões e queremos que a possibilidade de matar a galinha esteja presente todos os dias; tantas são mortas fora dali... O suspense estará presente, mas pela questão de tempo e foco decidi não matá-la naquele contexto. Ela será minha assistente!
Qual é o menu que será servido?
O publico terá a sua disposição pães e vinhos, terá uma entrada surpresa de milho e, por fim, o prato principal será uma rica e saborosa canja de galinha. Minha ideia é que as pessoas comam comigo. Como serei o único cozinhando do projeto, eu quero abrir a possibilidade de ter à mão outras pequenas preparações, para os alérgicos e outras ocorrências.
Com tantos elementos imprevisíveis envolvidos no solo, qual será a duração do monólogo?
Igor – Ele terá estruturalmente uns 50 minutos, podendo ser ampliado até uma hora e meia. Espero criar um ambiente em que as pessoas fiquem mais soltas e livres para experimentar um momento de verdade na cozinha, entre conversas e pausas; por isso imagino que esse tempo pode ser dilatado um pouco.
Quem assina a direção?
Igor – Eu interfiro em todas as funções, mas é Marcelo Souza Brito quem chega como diretor colaborador. Presença ilustríssima que trará um olhar novo nesse trabalho!
![]() |
| Igor Epifânio estrela o solo "A Arte de Matar Galinhas". Foto Márcio Lima. |
